Qual a relação entre tabagismo e doença periodontal?
As implicações do ato de fumar para a saúde bucal e para as chances de sucesso de tratamentos odontológicos Existe um consenso na comunidade científica de que o tabagismo é um dos mais significantes fatores de risco associados ao desenvolvimento da doença periodontal e de que também diminui as chances para o sucesso do tratamento, sendo considerado o mais importante risco evitável para periodontite entre todos os fatores relacionados ao estilo de vida.
A primeira citação data do final da década de 1940, quando a então denominada gengivite ulcerativa necrosante aguda (GUNA), atualmente conhecida como doença periodontal necrosante, foi relacionada ao consumo de tabaco.
Além do risco relacionado às doenças periodontais, existe uma associação com o desenvolvimento de doenças inflamatórias crônicas não transmissíveis, 9 e muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento estão vivenciando epidemias destas doenças causadas pelo tabaco, como doenças cardíacas, acidentes vásculo-encefálicos, câncer de pulmão e doenças crônicas obstrutivas pulmonares.
O tabagismo em dados
Em relatório recente da Organização Mundial da Saúde, estima-se que haja cerca de 1,3 bilhão de fumantes no mundo, dos quais 1,09 bilhão são homens e 244 milhões, mulheres. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil 2010) mostram que mais de 80% dos brasileiros entre 35 e 44 anos têm algum tipo de doença periodontal, faixa etária em que ela se manifesta na sua forma mais grave com taxa de incidência de aproximadamente 20%.
Há a questão sobre os fumantes passivos a se considerar, pois já existem evidências relevantes associando-os às doenças dos fumantes. Até o momento não foram encontradas evidências suficientes para afirmar que a periodontite tenha associação de causa e efeito somente com a exposição passiva ao tabaco, 13 embora tal hipótese faça sentido e, caso se confirme essa relação, é provável que ela seja dose-dependente.
Não obstante fumantes possam apresentar aumento do acúmulo de placa bacteriana e progressão da doença exacerbadas, paradoxalmente, seus sinais de inflamação gengival e seus sintomas são suprimidos. Eles têm menos inflamação gengival (sangramento à sondagem) e menor fluxo de fluido do sulco gengival, o que dificulta o diagnóstico clínico da doença.
O mesmo pode ser dito a respeito do perfil microbiológico entre fumantes e não fumantes.
Dados da literatura, embora inconclusivos, apontam para uma modificação fenotípica do P. gingivalis, uma adaptação, quando exposta à nicotina, e sugerem fortemente que o tabagismo está relacionado a um padrão específico de colonização periodontal.
Em comparação com os não-fumantes, os tabagistas respondem de forma insuficiente à terapia convencional de raspagem, e a associação com antibióticos na fase inicial é questionável por falta de evidências. Estudos apontam que a aplicação de doxiciclina 10% localmente após a raspagem, mostra algum resultado favorável.
Novos “vícios”
O uso de formas alternativas do consumo de tabaco, como cigarros eletrônicos, charutos, cachimbos, géis de nicotina e narguilé, tem ganhado popularidade em muitas partes do mundo com seu apelo místico, sua acessibilidade financeira, por ser uma novidade e pelo fator de agregação social.
Isso é preocupante, pois os jovens são o principal consumidor-alvo desses produtos. A quantidade de fumaça inalada e que entra em contato com os tecidos gengivais, é cerca de 180 vezes maior (1 hora de narguilé = 90.000 mL) do que a de um cigarro comum (500 – 600 mL).
Parar de fumar parece ser uma abordagem relevante para reduzir o risco de periodontite e melhorar as chances de sucesso de um tratamento periodontal. Definitivamente, toda e qualquer forma de consumo de tabaco traz prejuízos aos tecidos bucais. Os efeitos nocivos do ato de fumar para a saúde sistêmica podem perdurar por anos, mas, no ambiente bucal, a reversibilidade e os benefícios podem ser obtidos logo após o cessar do hábito. Torna-se clara a importância do papel do cirurgião-dentista como promotor de saúde, ajudando a identificar e a orientar o paciente tabagista e atuar ativamente no combate a esse hábito.


