A medicina do trabalho é uma especialidade que se preocupa com a prevenção das doenças no exercício profissional e controles dos riscos ambientais. Ela está diretamente ligada a normas governamentais que empresas devem cumprir na promoção de saúde do trabalhador.
Em outras palavras, ela atua na prevenção de doenças que o trabalhador está exposto em sua atividade profissional.
Se você já ouviu falar de EPI (equipamento de proteção individual), ou já passou por exames periódicos, exames admissionais e demissionais, então você já teve contato com a medicina do trabalho.
E dentro da rotina de trabalho podemos identificar um fator, ou uma armadilha, que contribui fortemente para prejudicar a sua saúde, que é a falta de tempo. Essa rotina consome um tempo considerável do seu dia a dia, tempo esse em que poderíamos usar para adquirir conhecimentos importantes no sentido de preservar nossa saúde, nos exercitarmos fisicamente e de aproveitar melhor o convívio familiar.
Para você poder entender melhor a importância da sua saúde como um todo, eu vou te apresentar alguns dados interessantes:
Você sabia que as doenças mais comuns que podem acontecer a um trabalhador são crônicas? Elas começam de forma lenta, e na maioria das vezes não apresentam sinais ou sintomas, ou seja, você não sente nada.
Maus hábitos relacionados à sua alimentação e não praticar exercícios físicos são péssimas escolhas quando o objetivo é ter qualidade de vida na terceira idade (assim como fumar e/ou ingerir mais álcool do que o recomendado).
Doenças cardiovasculares, diabetes tipo II e estar acima do peso são exemplos de doenças crônicas comuns em muitos adultos O stress também é um dos grandes responsáveis por desenvolver desequilíbrios importantes, como crises de ansiedade e o burnout, por exemplo.
E você deve estar se perguntando agora: sim, eu já ouvi falar de tudo isso, mas o que tem a ver com a odontologia?
Há um bom tempo já se estuda essa relação e cada vez mais são encontradas associações entre doenças sistêmicas inflamatórias crônicas e doenças bucais. Hoje, basta digitar no seu navegador de internet “saúde bucal e saúde sistêmica” que você terá muita informação já disponível sobre o assunto.
Doenças periodontais (como gengivite e periodontite), mau hálito e doença cárie todos conhecem. Também são doenças muito comuns na população adulta. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) ela atinge mais da metade da população no mundo. São mais de 4 bilhões de habitantes. . uma gengivite sozinha? Altamente prevalente em seres humanos, estima-se que cerca de 90% da população apresente essa condição.
Eu vou falar um pouco sobre a gengivite. As doenças periodontais podem ser divididas em duas: a gengivite e a periodontite. A gengivite se caracteriza pela inflamação da gengiva ao redor dos dentes e é causada pelo acúmulo prolongado de placa bacteriana. Isso acontece quando não conseguimos removê-la adequadamente da superfície dos dentes. Ela é uma condição muito importante pois indica um problema que pode se desenrolar em outros mais graves. Quando essa placa não é removida ela inflama o tecido gengival em alguns dias (4 ou 5), deixando-o dolorido, inchado, vermelho e sangrando. E isso pode evoluir mal: a placa acumulada pode, com o tempo, calcificar se transformando em cálculo, ou, corroer a superfície do esmalte em que está grudado iniciando uma lesão de cárie, caso essa pessoa consuma muito carboidrato fermentável.
Você não sabia, mas a doença periodontal avançada representa um aumento no risco para desenvolver certos tipos de câncer também:
- Risco 24% maior de desenvolver câncer pulmão e colorretal (segundo um estudo de Oxford);
- Risco 52% maior de desenvolver câncer de estômago e 43% maior de desenvolver câncer de esôfago.
Dores de dente, extrações dentárias são responsáveis por absenteísmo, ou seja, a ausência ou atraso não programados em atividades como o trabalho. É importante entender que, o mau hálito, gengivite, lesões de cárie, problemas de canal e eventuais extrações de dente, começam com uma higienização bucal inadequada e uma dieta rica em carboidratos fermentáveis, que persistem ao longo do tempo. Em um mundo ideal onde todos soubessem como manter essa forma de autocuidado de forma adequada por toda a vida, observariamos uma queda drástica na prevalência dessas doenças, ou até mesmo, a sua erradicação. Simples e de baixo custo, mas de responsabilidade individual.
Daí você pode concluir, e não estaria errado, que não é difícil prevenir que essas doenças aconteçam, e, por isso, é considerada como uma das doenças mais preveníveis segundo a OMS).
Um artigo publicado em 2015 sobre o tema trouxe bastante esclarecimento sobre o assunto.
Em resumo, diz que não se pode falar em doenças bucais sem levar em consideração as condições gerais de saúde de uma pessoa, visto que qualquer problema de origem bucal causa algum tipo de desconforto físico e emocional, prejudicando consideravelmente a saúde geral, gerando influência negativa sobre a capacidade do trabalhador.
Quando este desfruta de boas condições de saúde bucal torna-se mais desinibido, extrovertido e sociável, ao contrário de quando apresenta problemas odontológicos. Nessa situação é comum que manifeste vários sinais e sintomas, como dor, desconforto, sentimento de inferioridade e estresse. E lembro que o mau hálito também pode colocar uma pessoa nessa inconveniente situação.
Por conta disso, a precariedade do estado de saúde bucal pode levar ao absenteísmo e declínio na produtividade de um indivíduo. Alterações de humor e comportamento são notadas naqueles que sofrem, por exemplo, com dor de dente. Além de estar mais sujeitos a erros de julgamento e acidentes de trabalho, as relações interpessoais também podem ser prejudicadas por irritação e intolerância.
A Odontologia do Trabalho é uma especialidade desde 2001, reconhecida pelo Conselho Federal de Odontologia, por meio da Resolução nº 22. A especialidade foi incluída pelo Ministério do Trabalho e Emprego na Classificação Brasileira de Ocupações, recebendo o código 2232-76, podendo ser identificada também como odontologia ocupacional.
As competências do especialista em odontologia do trabalho dentro das empresas incluem: identificação dos fatores ambientais de risco à saúde bucal, verificação da obediência das medidas de segurança e higiene, planejamento e promoção de atividades de educação em saúde bucal, investigação dos índices de mortalidade e morbidade com causa bucal, realização de exames odontológicos admissionais.
No Brasil, apesar de terem ocorrido esforços para regulamentar políticas públicas voltadas para a saúde bucal do trabalhador, elas não foram devidamente contempladas com a atuação profissional do cirurgião-dentista do trabalho e sua equipe. Embora já sejam catalogados alguns agentes etiológicos de origem ocupacional, que são responsáveis por agravos à cavidade bucal, existe uma fragilidade na classificação de doenças exclusivas da cavidade bucal, visto que são escassos os estudos que os relacione.
Esse artigo de 2015, por si só, já demonstra a importância da inserção do cirurgião-dentista do trabalho nas empresas para compor a equipe de segurança e saúde do trabalhador, cooperando com os demais profissionais em todas as ações que visem preservar a integridade social e a manutenção da saúde geral do trabalhador, melhorando sua produtividade e reduzindo o absenteísmo por causa odontológica, problema que interfere diretamente na qualidade de vida e no trabalho do indivíduo. Hoje, quase 10 anos depois, isso se torna ainda mais importante, devido à quantidade de evidências que se somam a respeito da relação entre a saúde bucal e a sistêmica.


